© Marta Nunes
A memória é construída com fragmentos e pedaços, o atrito do que somos no passar dos anos. Todos os dias povoamos essa parte do nosso cérebro com cheiros, palavras, imagens, gestos, com aquela música que nos faz dançar em silêncio pela casa. As emoções em fotografias, livros, objectos que não o são apenas porque trazem com eles as pessoas a quem pertenceram, guardando tudo cá dentro, de forma para nós indefinida e misteriosa.
Depois há aquilo de que nos esquecemos - a memória selectiva - coisas que também cá estão, mas que esta massa cinzenta escolhe esconder, colocar debaixo da língua, trocar de ordem e revelar em sonhos. Os medos, as ansiedades, o põem-te em guarda que nos deixam despertos e nos fazem passar os dias a lembrar o que já é parte de nós. A infância torna-se urgente de recordar pelo medo que se torne demasiado longe. A adolescência mais leve, do que aquilo que certamente estávamos a sentir, nos momentos em que se achou que eram decisivos. Todos os dias a visitar pensamentos, a usar referências e a esquecer coisas, desde que se tem memória da nossa própria existência.






















