© Marta Nunes
Quando viajo por Portugal, penso muitas vezes na sua riqueza cultural, na sua forma de apropriação do espaço. De Norte a Sul a paisagem é muito diversificada, temos serras, montes, vales, planaltos e as planícies. Da mesma forma que as pessoas foram construindo as suas habitações de acordo com a sua envolvente, as casas, os edifícios construídos com a simplicidade do lugar.
Mas entretanto, algo sucede e a paisagem desvirtua-se. Há inúmeros exemplos que crescem em todo o algo, más intervenções, más escolhas, maus planeamentos. O que leva um país a desconstruir-se arquitectonicamente?
Quando penso nos "less is more" do Mies, acredito que muito povos o fizeram durante séculos, a função e o uso em simbiose, aliás o uso determinando a função, com pouco faz-se não muito, mas tudo. O meu fascínio pelas técnicas tradicionais advém disso mesmo, a simplicidade na escolha dos materiais, a forma como o uso destes é optimizado, com eles se faz o que se precisa, funcionalismo. Mas à medida, que fomos adquirindo "poder de compra", começamos a importar os estilos e formas de construir. A forma como começamos a regulamentar os sistemas construtivos tornou a forma de construir "standard", a parede dupla, em alvenaria de tijolo, com caixa de ar, isolamento térmico, e por aí fora... A chamada eficiência energética que começou a ser exigida, após tantos erros cometidos, pergunto-me se não poderiam ter sido evitados muitos desses casos?
A forma como se ensina também é determinante, e muitas vezes os sistemas construtivos de fácil reprodução são usados, porque se torna aquilo que se pode pensar mais eficaz. Mas como construíram então as pessoas das várias povoações sem o conhecimento técnico e a responsabilidade de assegurar que "funciona"?
Acredito que deveríamos voltara pensar em recolher a forma de construir tradicional e ensinar isso nas escolas, isso seria de extrema utilidade para que assim se pudesse ajudar tantas pessoas a ter melhores condições de de habitabilidade, passando por ensinar como preservar. Se não se ensina a preservar, nada fica.